Domingo, 5 de fevereiro de 2012  
 
 
Perfil do Autor

Índio branco, nascido no Jaguapiru, jornalista intuitivo, forjado no componedor, pós-graduado na Faculdade da Vida, com mestrado nos bastidores políticos e blogueiro por instinto de sobrevivência.
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  ARTIGOS
19/01/2012
O repórter deve contestar um entrevistado que mente ou distorce fatos?

Carlos Castilho, Observatório de Imprensa

Esta pergunta não é nova, mas esta semana provocou um grande bate boca na internet e nos meios jornalísticos. Ela foi feita por ninguém menos que o Editor do Público do jornal The New York Times. Arthur Brisbane fez, em sua coluna, uma pergunta que tocou numa das bases da profissão e deixou claro como está mudando o ambiente geral no jornalismo nesta era de transição de modelos informativos.

Os repórteres deveriam contestar as afirmações de um entrevistado quando houver evidências de que ele não está dizendo a verdade? A pergunta foi feita no momento em que se inicia a campanha eleitoral norte-americana para a sucessão do presidente Barack Obama e, como é praxe na política, os candidatos mentem, distorcem e omitem fatos pensando nas pesquisas de intenção de votos.

O contexto político e a sugestão de Brisbane não são específicos dos Estados Unidos, pois se referem a uma realidade existente em dezenas de outros países, inclusive aqui no Brasil. Temos eleições nacionais e regionais a cada dois anos, quando somos levados a testemunhar uma periódica avalancha de cinismo político, onde apenas os casos mais gritantes merecem alguma consideração crítica.

O papel da imprensa como patrulha do governo, políticos, empresários e personalidades públicas está consagrado na retórica convencional e nos manuais da mídia. Por isto não deveria surpreender e nem muito menos gerar resistências no meio profissional. Mas acontece que a realidade não é bem esta.

A questão da objetividade e isenção surge quase que automaticamente quando aparece uma discussão como a provocada pelo Editor do Público do NYT. Para os defensores da isenção, os jornalistas devem se limitar a reproduzir o que vêem ou ouvem, e só em ocasiões especiais, o que sentem e sabem.

Seriam observadores acima dos conflitos de interesses e opiniões. Algo que o filosofo norte-americano Thomas Nagel tentou esclarecer cunhando a expressão The View from Nowhere, que poderia ser traduzida por observação a partir de nenhum lugar.

A isenção plena seria uma condição utópica onde o jornalista veria a realidade sem se envolver nela, como se estivesse observando o planeta Marte por um telescópio. É óbvio que este tipo de postura não existe, mas mesmo assim os quesitos isenção e objetividade fazem parte do discurso oficial das empresas jornalísticas e de muitos jornalistas.

 
23/11/2011
Letras UFGD: 40 anos

Wilson Valentim Biasotto*

Aos professores do curso de Letras da UFGD, pela árdua, mas não inglória missão de transmitir os segredos e as belezas de nossa Língua Pátria.

1971, o terreno doado por Wlademiro Muller do Amaral já não tinha sequer vestígios do velho barbaquá que durante muitos anos servira para a secagem da erva-mate. Seu Dionísio, um dos mais antigos funcionários do CEUD, contava-me histórias de tempos antigos e dentre elas a da existência desse barbaquá no terreno onde hoje se encontra a reitoria da UFGD. Poucos talvez saibam desse importante detalhe, afinal, onde hoje se encontra a reitoria da UFGD é uma região metropolitana, embora nos idos de 1970 fosse um recanto distante da cidade. Uma ou outra construção acima da Rua Ciro Melo, no mais o descampado e ruas sem pavimentação. A Vila Tonani ainda não havia sido loteada, o BNH 1º Plano ainda não fora inaugurado e não passava de um bairro periférico, sem asfalto. O BNH 3º Plano somente foi inaugurado em 1976, se a memória não me falha. Diria que o CEUD de 1971 estava quase tão distante da “cidade” quanto está hoje a Cidade Universitária.

Wlademiro Amaral era agrimensor de profissão, tinha profundo conhecimento da região e sabia perfeitamente que as nossas terras férteis precisavam de técnicos especializados para fazê-las produzir. Doou aquela quadra (hoje reitoria da UFGD) ao Governo do Estado para que fosse implantada a Faculdade de Agronomia, tanto é verdade que quando da inauguração do prédio, a placa comemorativa trazia a inscrição: “Faculdade de Agronomia”. Mas, não tendo sido cumprido o desejo do doador, esse nome foi riscado da placa, rasura que deve permanecer até hoje, se é que a placa não foi removida. 

Ao invés da Faculdade de Agronomia foram implantados em Dourados em 1971 os cursos de Letras e Estudos Sociais (embora tenham sido anunciados os cursos de História e Geografia, o que gerou a primeira greve do ensino superior em Dourados). Estudos Sociais sucumbiu, não resistiu nem mesmo ao fim da ditadura militar que o implantou. Restou Letras, sólido, vibrante, forjador de jovens talentos literários, lingüísticos, poéticos e jornalísticos. Restou Letras, o primeiro curso superior abaixo de Campo Grande, que formou professores habilitados para ensinar a Língua de Fernão Lopes, Gil Vicente, Camões e Saramago; a Língua de Machado, Drummond, João Cabral, de Chico, de Vinícius e de todos nós.

Quarenta anos decorridos, talvez poucos se lembrem dos pioneiros, quase todos migrantes: Isaura Higa e Telma Vale de Loro vieram de Campo Grande. A irmã Josefina e a professora Ema Elisa Goellsner do Rio Grande do Sul. O professor José Pereira Lins do Nordeste e Lauro Chociai do Paraná. Dos pioneiros faleceram Isaura Higa, que empresta o seu nome à Biblioteca e José Pereira Lins, hoje dando nome ao edifício da FACALE. Os outros pioneiros que ministraram aulas no curso de Letras, embora fossem de outras áreas de conhecimento foram os professores Kiyoshi Rachi, vindo de São Paulo, Zonir de Freitas Tetila, mato-grossense da gema e Lori Alice Gressler, vinda do Rio Grande do Sul.  

Atualmente imagino que os pioneiros, lembrados ou não, devem sentir uma pontinha de satisfação por terem enfrentado tantos e tantos sacrifícios para legarem à nossa região essa grande realização imaterial, que forjou lideranças, que cresceu, fortaleceu-se e hoje é reconhecido nacionalmente.

Suas críticas são bem vindas

biasotto@biasotto.com.br

* Membro da Academia Douradense de Letras; aposentou-se como professor titular pelo CEUD/UFMS, onde, além do magistério e desenvolvimento de projetos de pesquisas, ocupou cargos de chefia e direção.

 
18/11/2011
O Marketing e os erros dos políticos

Chico Santa Rita

O Instituto Teotônio Vilela, órgão de estudos e formação política ligado ao PSDB, realizou um seminário de intelectuais, personalidades e lideranças, para debater o futuro do país e a participação do partido no que foi chamado de “A Nova Agenda”. Derrotados nas três últimas eleições presidenciais – e sem contarem com perspectivas claras para 2014 – é uma providência significativa.

Mas o organizador do encontro, ex-senador Tasso Jereissati, já na entrevista em que apresentou as metas da iniciativa à jornalista Vera Magalhães (Blog da Folha “Presidente 40” 06/11), mostrou dificuldade em entender os processos de Marketing Político utilizados nas campanhas anteriores.

Ele debita as derrotas do PSDB a “marqueteiros”, aos quais foram dados “excesso de poderes”. E explica: “quem tem de decidir a estratégia política é o partido. (…) Marqueteiro tem de escolher se embrulha essa estratégia num papel azul ou cor de rosa, tem de definir a forma desse conteúdo”.

Em primeiro lugar, errarem em três eleições consecutivas (sendo que em 2006 o próprio Tasso era o presidente do partido) beira a insensatez. Em seguida, o fato é que cometeram um equívoco muito comum nessas ocasiões, quando se contrata um produtor de TV, ou um jornalista, ou um pesquisador, ou um publicitário e se dá a ele a função de exercer o Marketing Político, uma atividade diversa daquela que ele domina. É a contratação do “marqueteiro” errado. Essas atividades são apenas as principais ferramentas, entre tantas que um “marqueteiro” competente tem que saber usar.

E o ex-senador ainda completa seu raciocínio com uma comparação desastrosa, talvez influenciado pela sua atuação na diretoria de shopping center, transformando o profissional num mero embrulhador de presente.

O procedimento correto, para bem direcionar uma campanha eleitoral, é haver um visceral entendimento entre o Consultor de Marketing Político e o candidato(a) e seus assessores, que representam o partido nesse momento.

A estratégia a ser usada é realmente o ponto crucial. Mas ela não nasce de um lado ou de outro. É consequência, principalmente, do conhecimento profundo, pessoal e profissional, do ente político que está à frente do processo; do entendimento circunstancial do momento político em que a eleição transcorre, do estudo das personalidades dos competidores, do alinhamento das demandas que a população alimenta. Uma série de ações desenvolvidas em conjunto, para promover o debate político, onde o conteúdo é mais importante do que a forma.

E não há repetição: cada trabalho é diferente do outro, mesmo que o candidato seja o mesmo. Para usar um simbologismo também presente na atividade dos shoppings, insisto que uma campanha não é roupa prêt-à-porter; é vestimenta feita sob medida.

O Marketing Político não pode ser responsabilizado pelos desacertos e pelo mau uso que alguns políticos (e “marqueteiros” de ocasião) fazem dele. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, presidente de honra do mesmo PSDB, fez uma análise acurada dessa situação, em entrevista à revista universitária “Politicom”: “Nós temos profissionais altamente qualificados no Marketing Político (…) Os políticos não acompanham o ritmo dos profissionais do marketing, são mais atrasados.”

Palavra de quem conhece e tem autoridade para colocar o marketing e a política nos seus devidos lugares.

*Chico Santa Rita, jornalista e publicitário, é Consultor em Marketing Político desde 1976, autor de 2 livros sobre o tema.

*Artigo originalmente publicado no DCI 17.11.2011

 

 
12/10/2011
"Tá vendo aquele edifício moço?"

Wilson Valentim Biasotto *

 "Cidadão" é a música de Zé Geraldo que conta a história de um nordestino que foi para São Paulo trabalhar como servente de pedreiro e depois de muito sofrer toma consciência de que as suas obras, sua força de trabalho e seus calos nas mãos de pouco ou nada lhe valeram.

Estive na segunda-feira passada (10/10/2011) no Hospital Universitário e me senti um pouco esse "cidadão", pois fui impedido de entrar para mostrá-lo a dois empresários de São Paulo que poderiam trazer algum benefício para aquela majestosa obra.

Em casa procurei a letra da música e os meus olhos lacrimejaram. O cidadão da música não podia sequer olhar para o edifício que ajudara a edificar. Mas eu dei a volta por cima. Veja o leitor como às vezes o mundo todo conspira a nosso favor. Dias atrás um tio de minha mulher veio visitar-nos e foi acometido de forte infecção pulmonar. Levado ao Hospital da Vida foi muito bem atendido e ato seguinte encaminhado para o Hospital Universitário. Que fiz ao ser impedido de entrar? Como estava em horário de visitas fui até a ala que encaminha esse procedimento e assim empresários e eu entramos para visitar o tio e pudemos oferecer ao menos uma ínfima idéia daquela obra aos empresários.

Sinceramente, não me chateei ao ser impedido de entrar. Os funcionários novos não têm obrigação de conhecer a história do hospital (embora fosse oportuno), muito menos de saberem que a idéia de transformá-lo em HU foi minha. Por outro lado foi gratificante ouvir o testemunho de nosso tio, dizendo que o atendimento por ele recebido era magnífico. Segundo ele não havia exceção: médicos, fisioterapeutas, enfermeiros(as), copeiras, pessoal da limpeza, todos o atendiam eficaz e carinhosamente, portanto mereciam os seus agradecimentos. Observando que o estado de conservação do Hospital não era tão condizente com o depoimento de nosso tio resolvi conversar com outros pacientes e todos foram unânimes em afirmar que estavam sendo muito bem tratados. 

Engana-se, portanto quem supõe que a Saúde Pública em Dourados é a pior da face da Terra. Claro que temos problemas, mas em compensação podemos servir como referência até mesmo para cidades de nosso porte situadas em estados brasileiros mais desenvolvidos que o nosso.

Bem, mas embora não seja lobista, mas por ter um parente envolvido na empresa que visitava Dourados, levei os empresários a outros hospitais. Tivemos contratempos devido aos nossos feriados e pontes, mas eles ficaram muito bem impressionados com o Santa Rita, Cassems, Hospital do Coração e com o CDM. No Evangélico, onde fomos recebidos pelo diretor geral e pelo diretor do Centro de Diagnóstico e Imagens, os empresários ficaram agradecidos com a recepção que tiveram e admirados por encontrar naquela casa de saúde aparelhos existentes em apenas trinta hospitais brasileiros, a exemplo do Albert Einsten.

Por fim, além de tornar público o agradecimento de minha família a todo o pessoal do Hospital da Vida e ao Hospital Universitário pelo atendimento que dispensaram ao nosso tio (e aos enfermos em geral), reafirmo a minha fé de que Dourados é maior que os seus atuais problemas e ainda haverá de ser uma Cidade Educadora.

Crônica escrita no dia 12 de outubro, feriado Nacional em honra à padroeira do Brasil, Nossa Senhora de Aparecida, e dia em que se comemora o dia da criança.

* Membro da Academia Douradense de Letras; aposentou-se como professor titular pelo CEUD/UFMS, onde, além do magistério e desenvolvimento de projetos de pesquisas, ocupou cargos de chefia e direção.

 
09/10/2011
O partido que falta

CARLOS HEITOR CONY


RIO DE JANEIRO - Fiquei sabendo pelos jornais que o Brasil terá mais um partido político: o PPL (Partido Pátria Livre). Somando-se aos já existentes, serão 29 segmentos políticos da sociedade que terão programas para melhorar as coisas e causas nacionais, embora eu não compreenda, por exemplo, que existam 29 maneiras de ser contra ou a favor do aborto, do casamento gay e dos royalties do pré-sal que ainda está no fundo do mar.
Evidente que os 29 partidos poderão fazer coligações em torno de ideias comuns, mas, na realidade, as coligações nada têm de ideológicas e sim de eleitorais, de acordo com cada Estado ou município.
Fala-se em reforma política há bastante tempo. No fundo, o que a classe profissional dedicada ao setor pretende é uma arrumação partidária, aumentando o número de vagas nos Legislativos e de possibilidades na hora das nomeações para os diversos cargos públicos de primeiro e segundo escalão.
Para efeito prático, desde os tempos do Império, a divisão política ficava no conservadorismo e no liberalismo. Em outros países continua esta divisão básica e suficiente. Nos tempos da ditadura, os militares criaram dois partidos e, pensando bem, houve até algumas surpresas, com a vitória da oposição (MDB) em diversas regiões eleitorais.
Agora uma constatação: se, nos tempos de chumbo, em vez de dois partidos tivéssemos 29, certamente ainda estaríamos mergulhados na ditadura. O lugar-comum garante que é bom dividir para reinar.
Como não sou filiado nem admirador de nenhum dos 28 partidos existentes, não sinto o menor entusiasmo pelo 29º que está sendo criado, gostaria que a reforma política criasse mais um, o 30º, o partido do eu-sozinho, do qual eu seria fundador, presidente e beneficiário. Apoiaria as grandes causas nacionais, sobretudo as minhas.

 
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