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Valfrido da Silva Melo é jornalista, escritor, roteirista, produtor e diretor de TV e consultor político.
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2010 |
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ARTIGOS
| 13/03/2010 |
| Delenda Cartago |
Wilson Valentin Biasotto * É muito difícil, mas vez ou outra, no impulso da redação de um texto, sapeco no meio de minhas crônicas uma expressão estrangeira. A última, "delenda Cartago est" causou polêmica. Dois latinistas de nossa terra, entendendo que a citação estava incorreta, resolveram sair a público para as suas aulas. Para o professor Benê Cantelli o correto seria "delenda est Carthago" e para o advogado Altair da Costa Dantas "Ceterum censeo Carthaginem esse delendam". Como no final de minhas crônicas coloco sempre o lembrete de que as críticas são bem vindas, em primeiro lugar agradeço a atenção que ambos dedicaram ao meu texto. Relevo as insolências do advogado Altair para centrar-me apenas na expressão em pauta e demonstrar que ninguém está absolutamente errado. Claro que eu, particularmente, daria mais valor ao bolo que à cereja que o enfeita. Ou seja, gostaria muito mais de discutir ideologicamente as questões que levantei na crônica "A invasão do Haiti pela política imperialista" que discutir uma expressão latina citada como ilustração. Mesmo porque os meus conhecimentos pouco vão além do que aprendi nas aulas que tive no curso ginasial, das missas que eram rezadas e cantadas antigamente em latim e de algumas orações que os meus avós recitavam com rara beleza, como o "De Profondis". Os historiadores sabemos que muitas das frases celebres atribuídas aos personagens históricos, na verdade foram colocadas em suas bocas por gente, historiadores ou não, que pretendia depreciar ou enaltecer determinadas figuras. Ou o leitor acredita que Maria Antonieta teria dito realmente para se dar brioches ao povo, na falta de pão? D. Pedro teria dito exatamente: "se for para o bem de todos e felicidade geral da nação, digam ao povo que fico", ou enfezado com as cartas que lhe chegavam teria dito algo como "às favas Portugal, fico no Brasil". As frases dos personagens históricos são normalmente curtas, incisivas e, com certeza, lapidadas; "a sorte está lançada", teria dito César ao atravessar o Rubicão, mas será mesmo verdadeira outra que lhe é atribuída na hora em que foi apunhalado: "até tu Brutus, meu filho?". Tomemos exemplos recentes. Alguém no auge de um pronunciamento diria "fora excelentíssimo senhor governador Arruda" ou apenas "fora Arruda", como ademais sucedeu com o "fora Collor"? Alguém diria em meio a uma manifestação pelas "Diretas Já": "desejamos o final da ditadura", ou diríamos apenas, como de fato dissemos: "Abaixo a Ditadura". Claro que procuramos frases curtas e contundentes, como as que são proferidas ou postas na boca de "heróis". O Senador Eduardo Suplicy, na crise envolvendo o senado e particularmente o senador Sarney, superou até mesmo o uso de frases curtas e ao invés de um sonoro "fora Sarney", simplesmente apontou-lhe um cartão vermelho. Retomemos a expressão. Ora vejam, para motivar a guerra é bem provável que Catão fizesse um discurso forte, inflamado. Um discurso que deveria terminar objetivamente, portanto, o mais racional é acreditar que ele teria dito simplesmente, num arroubo: "Delenda Cartago". Busco um Dicionário de Língua Portuguesa que possui expressões estrangeiras, um dicionário do MEC, edição de 1986, e lá encontro a expressão "Delenda Cartago" (note-se a supressão do verbo na voz passiva), traduzida por "Cartago deve ser destruída". Concluo que o restante é acessório. O que os historiadores ou quem quer que seja que tenha escrito os discursos de Catão puseram-lhe na boca posteriormente pode refletir a idéia verdadeira da expressão usada, mas não o arroubo do momento. Ou seja, é tão correto dizer-se "Delenda Cartago", como "Delenda Cartago est" ou "Delenda est Cartago", Mesmo porque a ordem das palavras, no caso do latim, que é uma língua sintética e de declinações, não altera o significado da frase. Existe ainda uma outra variação, mais longa. "Ceterum censeo Carthaginem esse delendam". "Si non è vero è bem trovato" (Ainda que se duvide da veracidade esta bem posto) e, dessa forma, como "noblesse oblige", que é um simplificação de "la noblesse est obligé" (a nobreza se obriga), ao invés de citar Cícero para os críticos que fizeram cavalo de batalha com a expressão que usei, e dizer-lhes: "Qvosque tandem abvtere, Catilina, patientia nostra? (Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?), desejo-lhes "salute e palanco a tutti e a quantti" (saúde e dinheiro, a todos e em quantidade). Ou, "Dominus vobiscos" (Deus esteja convosco). PS- Meu lapso na crônica "A invasão do Haiti pela política imperialista" foi trocar Catão por Cícero. Nem por isso o dólar sofreu qualquer oscilação. Seus comentários são bem vindos; biasotto@biasotto.com.br * Membro da Academia Douradense de Letras; aposentou-se como professor titular do CEUD/UFMS, onde exerceu cargos de chefia e direção. |
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| 08/03/2010 |
| Opiniões ou palpites? |
Isaac Duarte de Barros Junior * Fazendo minha leitura diária matinal, analisando as reportagens do dia e o pensamento articulado em algumas colunas especializadas dedicadas a política, fiquei bastante preocupado. Sopesando, o fato de já ouvir locutores nos noticiários radiofônicos e apresentadores televisivos, divulgando acontecimentos violentos, o pior mesmo foi constatar a existência de blogs cedendo espaço para internautas sem senso do ridículo, postarem textos como formadores de opinião. O ínclito jornalista Valfrido Silva, nosso maior articulista político na região, havia me alertado sobre as possibilidades disso acontecer algum dia. Assistia-lhe razão, pois a comunicação de massa deve continuar sendo feita, tão somente por quem conhece da profissão. Entretanto, vaidosamente, leitores resolveram articular agasalhados no manto da liberdade de expressão. Com isso, ficou facilitada a ascensão de verdadeiras aberrações leigas nos meios de comunicação. Muitas delas, sem reunir as mínimas condições esperadas, desastrosamente aparecem opinando. Diante do fato, vejo que aquele respeitado periodista nascido na reserva indígena do Jaguapirú e criado no bairro da Cabeceira Alegre, estava certo ao externar a sua inquietação. Ainda mais ele, que como jornalista, foi testemunha ocular do nascimento de Mato Grosso do Sul. Politicamente divergimos e defendemos posições conflitantes, militando profissionalmente nos meios de comunicação, pois nessa época eu vivi um ambiente privativo para profissionais de imprensa. Mas reconheço nesse repórter democrata, seu alerta a classe plumitiva naqueles idos dos anos setenta. Como radialista, Valfrido ainda preveniu sobre as futuras mudanças na conduta dos cidadãos pobres, que desiludidos acabariam sendo despertados pelas informações da mídia, ao saberem de falcatruas nos bastidores da política. Mesmo expondo as mazelas do sistema republicano, no perigo de delegar poderes de mando populares aos analfabetos sociais, Valfrido antecipando o desastre, mostrou que isso poderia acontecer. Segundo esse jornalista e escritor, o desequilíbrio seria iminente, se os cidadãos eleitores ignorassem as biografias e enfermidades éticas dos candidatos eleitos. Ao menos, essas eram as caboclas preocupações do jornalista Valfrido Silva e do velho empresário Antonio Tonnani. Ninguém os levou a sério, até surgirem os primeiros líderes comunitários, na verdade rústicos trabalhadores que foram colocados na listagem dos diretórios políticos partidários, para serem manipulados, indicando candidaturas respaldadas pelos políticos tradicionais. Porém, insatisfeitos com as indicações feitas, o populacho se valeu dos dispositivos legais, iniciando nos anos oitenta o famoso ciclo das indicações cômicas. Para os politiqueiros de bairros concorrerem, conseguindo ganhar as eleições, inventaram as visitas domiciliares de porta em porta. Com as facilidades, oportunizadas pela Lei Eleitoral, verdadeiros espantalhos de comportamento hilário, foram eleitos e fizeram dos seus municípios, politicamente uma piada. Finalmente, graças aos beócios culturais nos palanques eleitoreiros, a nossa língua portuguesa, filha do latim, foi chulamente assassinada por líderes aculturados, no meio da aclamação anfibológica do eleitorado parvo. E enquanto o caldo desse chiste engrossava, o saudoso Antonio Tonnani foi contar anedotas no céu. Quanto ao jornalista Valfrido Silva, este ficou apreciando com um dicionário nas mãos, as trapalhadas de lingüística dos novos comandantes. Certamente, se nesse ínterim, ele atirasse um desses saltérios em cima dos palanques, armados com sonorização barulhenta nas periferias, certamente teríamos um atentado real, bem mais crível do que alguns noticiados, caso fosse investigado. Ocorre que hoje qualquer município atingindo a sua independência econômica, representa no contexto o sonho materializado dos munícipes mortos e vivos. E nele, ninguém pode destruir objetos de arte históricos, sem acertar depois as contas com a lei. Também, não se pode negligenciar na prestação de serviços urgentes, tão necessários a saúde, como a limpeza urbana. Sabe-se que existem municípios em Mato Grosso do Sul, violentando descaradamente o ecossistema, aumentando o desgosto popular com administrações, cuja probidade é cobrada pelo Ministério Público estadual, por estarem sob suspeita. Para mim é o que basta, política afinal, não é um simples picadeiro de circo. Chega, portanto, de tantos constrangimentos e basta de orgias com o dinheiro do povo. Sendo iguais perante a lei, até para eleger idiotas, podemos exigir mudanças. Porque, sem dúvida, é preciso uma intervenção estadual em desfavor de prefeitos arrogantes e aculturados, afinal o povo tolerante merece maior respeito no sistema republicano. Ademais, a presença desses alcaides ridículos na mídia, só tem despertado risos de zombaria. Assim, basta de anarquia, porque é preciso instalar a ordem nesses municípios, aliás, como deveria ter sido uma regra no comportamento dos empossados. *advogado-criminalista,jornalista e-mail: isane_isane@hotmail.com |
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| 06/03/2010 |
| Curso de Medicina: dez anos redondos |
Wilson Valentim Biasotto * Em homenagem aos formandos de Medicina, 5ª turma, que nessa semana colam grau pela UFGD O tempo passa inexorável, mas confesso que às vezes penso que o tempo não passa coisa nenhuma, o tempo permanece como sempre esteve e nós é que passamos rapidamente por ele. Ainda tenho fresco em minha memória todo o processo que levou à implantação do curso de Medicina em Dourados, mas já se passaram dez anos desde que a primeira turma entrou em sala de aula no frutuoso ano de 2000 para o ensino público federal em Dourados. Frutuoso porque além da Medicina, iniciaram as suas atividades, nesse ano, vários outros cursos que conseguimos criar e que merecerão crônicas à parte. Sobre o curso de Medicina, não obstante tudo o que já foi dito, há muito a dizer, a começar pela elaboração do projeto, a busca de apoios, a aprovação pelos Conselhos Superiores da UFMS. Depois veio a implantação, as dificuldades passadas pela primeira turma, a abnegação dos professores, ressaltando-se que muitos contribuíram com o início do curso sem ganhar tostão pelo seu trabalho. Enfim, existe uma belíssima história a ser escrita sobre esse curso que, além de sua importância intrínseca, contribuiu, conforme planejamos, para a aceleração do processo de implantação da UFGD.. Desejo que esses e outros temas sobre o curso sejam abordados por aqueles que viveram essa história, de minha parte, hoje, vou abordar um aspecto de somenos que talvez seja desconhecido até mesmo pelos pioneiros desse empreendimento. Trata-se da estrutura do curso. A Comissão encarregada de elaborar o projeto do curso era composta pelo então presidente da Associação Médica da Grande Dourados, o médico Leidinz Guimarães, pelo seu sucessor, o médico Takeshi Matsubara, a médica Denise Nemirovsky e professora Doutora em Educação pela USP, Dirce Nei Teixeira de Freiras e por mim, que presidi a Comissão. A mim competia coordenar os trabalhos, aos médicos a parte técnica e à professora, o projeto pedagógico. A professora Dirce Nei aprofundou-se no estudo de currículos de dezenas de cursos de Medicina espalhados por esse Brasil afora, e descortinou-nos horizontes novos. Mostrou-nos possibilidades que desconhecíamos, mas que se encaixavam perfeitamente nos nossos ideais. Em outras palavras, a professora Dirce Nei encontrou o formato de curso que tanto os médicos Denise, Leidniz, e Takeshi quanto eu almejávamos, mas que tínhamos dificuldades em projetar. Encontrado o caminho, a contribuição desses três médicos citados subsidiados também por outros colegas da Associação Médica - foi importantíssima para dar consistência técnica ao projeto. E tal foi a consistência que, de fato, o projeto foi aprovado por todos os Conselhos da UFMS. Ele consistia em formar o médico generalista, ou se quiserem o clínico geral. Os médicos formados segundo essa estrutura teriam, com certeza, uma forte inclinação para trabalhar em equipes que conhecemos por Médicos de Família. Nesse sentido, Dourados seria uma referência nacional. No final de 1999, o Pró-Reitor de Ensino da UFMS, professor Edson Cáceres, chamou-me para uma reunião e decretou que o Curso de Medicina em Dourados, embora aprovado em todas as instâncias, somente seria implantado em 2000 se seguisse a mesma estrutura curricular do Curso de Medicina da UFMS de Campo Grande. O professor Edson Cáceres, seguindo a orientação do reitor Jorge João Chacha, foi muito importante na criação do Curso de Medicina em Dourados, mas embora sendo meu amigo, jamais me mostrou os reais motivos, a exata razão pela qual a moderna estrutura que tínhamos proposto e aprovado foi rejeitada. Vendo-me sem opção, concordei. O Curso de Medicina de Dourados começou a funcionar com a mesma estrutura curricular do de Campo Grande em março de 2000, com um importantíssimo apoio da UEMS (cuja reitora àquela época, a professora Leocádia Aglaé Petri Lemos, havia participado comigo do Projeto Cidade Universitária) e do governo do Estado (com o então governador Zeca do PT). Perdermos, no entanto, a oportunidade ímpar de implantar uma estrutura moderna e inovadora na formação de médicos. Com a criação da UFGD houve significativas mudanças na estrutura do curso, mas não seria má idéia se os atuais dirigentes procurassem recuperar esse projeto original, mesmo que fosse apenas para verificarem se aquelas ideias inovadoras eram realmente válidas e se fizeram alguma falta ao curso. De qualquer forma, o importante é ressaltar que o curso de Medicina da UFGD está consolidado após esses dez anos de existência e contribui sobremaneira para o desenvolvimento de Dourados enquanto centro médico-hospitalar. Seus comentários serão bem vindos: biasotto@biasotto.com.br * Membro da Academia Douradense de Letras, professor aposentado CEUD/UFMS |
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| 02/03/2010 |
| Enchentes e responsabilidade do poder público |
* Caroline Mendes Dias
Nos últimos tempos a sociedade tem testemunhado o acontecimento de diversas catástrofes protagonizadas pela natureza, como terremotos e maremotos, secas castigáveis, chuvas de verão em imensas dimensões, nevascas, entre outros eventos naturais com conseqüências quase bélicas, como inundações, alagamentos, enchentes e destruições de cidades e comunidades. Tenham esses eventos dimensões tão grandes ou mesmo leves, como a queda de uma árvore durante um vendaval, é certo que esses acontecimentos da natureza causam grande impacto na vida da sociedade do local atingido, lhes impingido prejuízos nas esferas patrimoniais e morais, diante da perda de bens materiais e, ainda pior, de situações causadoras de dores pessoais, como o medo, o desalojamento, a angústia e insegurança ou a perda de um ente familiar. Pois bem, diante de tais sinistros, amplamente divulgados pela imprensa, surge a dúvida de boa parte da população, sobre quem pagará a conta. Quem seria o responsável por indenizar os diversos prejuízos oriundos de tragédias por vezes até anunciadas? Seria o Poder Público o responsável, ou estar-se-ia diante de um evento imprevisível, uma revolta da natureza e dos céus, que por serem inimagináveis devem ser suportados silenciosamente pelos particulares? Em que pesem os infindáveis debates voltados ao campo climático ou às questões de engenharia, é certo que as contribuições jurídicas, nesses casos, são imprescindíveis para que se encontrem as melhores soluções para as respostas acima, as quais irão depender da realidade do sinistro ocorrido. O primeiro aspecto a se considerar acerca da responsabilidade diante dos graves danos provocados por tais sinistros naturais diz respeito à imprevisibilidade do mesmo ou ao conhecimento prévio da alta probabilidade de sua ocorrência; bem como à possibilidade de que a extensão de seus danos tenha sido potencializada pela ausência ou ineficiência de obras públicas necessárias, principalmente na esfera municipal. Independente de tais possibilidades de impresivibilidade, parece certo, pelo menos no que diz respeito aos eventos ocorridos nas principais cidades e capitais brasileiras nos últimos meses, que os mesmos eram esperados, principalmente pela periodicidade histórica com que vêm ocorrendo, o que leva à conclusão forçada de que os danos dali oriundos só ocorreram, ou se potencializaram, em razão da procrastinação sucessiva do enfrentamento da questão pelos órgãos públicos, da ausência de adoção de medidas céleres para o cumprimento de suas obrigações, bem como ao defeito na prestação de serviços por parte da administração pública, especialmente da municipalidade, que é a responsável direta pela execução de tais serviços. Incluem-se aqui ainda as medidas administrativas que implicam em danos ambientais graves, como concessões a particulares e realizações de obras sem a cautela necessária. Em casos em que estejam presentes essas realidades de ausência ou defeito na prestação de serviços públicos, a responsabilidade do município em reparar os danos causados aos particulares é iminente, haja vista que não se está diante de simples prejuízos ocorridos por eventos naturais, e sim de danos potencializados pela ação do poder público. Com efeito, a responsabilidade da administração pública diante de danos causados a terceiros possui previsão constitucional, de acordo com o artigo 37, §6º, que determina que as pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros [...]. Logo, os órgãos públicos responderiam pelos danos de forma objetiva, ou seja, independente da ocorrência de dolo ou culpa. Essa responsabilidade exige apenas a fixação do nexo causal (causa e efeito) entre o dano produzido e a atividade funcional desempenhada pelo agente estatal. Tal responsabilidade possui apenas algumas possibilidades excludentes, entre elas a alegações de ocorrência de caso fortuito ou força maior, o que não se aplicaria nos casos em que o sinistro era previsível, pelo histórico da cidade ou pelas previsões climáticas já tão precisas pela modernidade atual. Nos casos ora tratados, os eventos naturais são aliados a um ato omissivo do poder público na consecução do serviço, como são exemplos as enchentes que poderiam ter sido evitadas pela limpeza adequada de bueiros e galerias pluviais, conservação de canais e comportas, fiscalização de obras particulares e eficiência nas obras públicas necessárias. Nesses casos de danos ocasionados por ausência do serviço público, ou seja, omissão do poder público quanto às suas obrigações de defender o bem social, aplicável seria o que se chama de culpa anônima da administração, onde, na verdade entende-se que, embora não seja a chuva agente do Estado, o que afastaria sua responsabilidade objetiva, responde a Administração se for provado que a falta do serviço concorreu decisivamente para o evento. Assim, mesmo sendo pacífico o dever de indenizar da Administração Pública nesses casos, há ainda discussão doutrinária sobre a natureza de tal responsabilidade, se seria objetiva ou subjetiva. Para fins práticos para os cidadãos, isso implica em decidir se o particular tem o dever de provar a culpa do órgão público ou não. Em caso de ação judicial para a obtenção da justa indenização, a prova sobre a implicação da falta do serviço público, seu mau funcionamento ou funcionamento tardio, poderá ser obtida mediante perícia, seja de quem for considerado o ônus da prova. Não se pode fazer vistas grossas ainda à possibilidade de responsabilização não só do município, como também do estado e da própria União, haja vista a responsabilidade dos mesmos em realizar ou subsidiar financeiramente as obras de infra-estrutura das grandes cidades. Deve-se ter em mente, porém, que a via judicial será, sem dúvida, mais uma etapa sacrificante para o particular, que por vezes já terá enfrentado diversos dissabores. Tal demanda terá um andamento lento, podendo durar longos anos, e em boas hipóteses, resultar em precatórios, que levariam mais algum tempo para serem quitados. Há ainda a possibilidade, consideravelmente mais célere e justa, de que os próprios órgãos públicos responsáveis, mediante procedimentos administrativos, decidam sobre a aplicação, quantificação e pagamento de indenizações a terceiros claramente prejudicados pelas catástrofes naturais. Em termos de direitos coletivos, caso ocorram danos de amplitude extrema, seria cabível o acionamento judicial mediante ação civil pública, onde algumas entidades elencadas na lei, podem buscar judicialmente obrigar o poder público a tomar providências, praticar ou deixar de praticar atos relativos ao problema decorrente de eventos naturais. Independente do meio escolhido pelo particular prejudicado, é certo que se espera do Poder Público que os ressarcimentos sejam feitos de maneira justa, célere e visando minimizar os efeitos e danos suportados pela sociedade que confiava na segurança dos serviços públicos prestados. Tais indenizações possuem ainda o objetivo de resgatar na sociedade a confiança e credibilidade para com os órgãos públicos e os agentes políticos eleitos.
*A autora é advogada associada ao Escritório Resina & Marcon Advogados Associados. Graduada pela Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal. Especialista em Direito Civil com ênfase em Registros Públicos e Direito do Consumidor pela Faculdade Autônoma de Direito de São Paulo FADISP e ESA/MS. Pós-graduanda em Direito Público pela Universidade Católica Dom Bosco UCDB. Professora das disciplinas de Direito Constitucional e Administrativo para concursos públicos.
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| 10/02/2010 |
| Linha do tempo das Universidades Públicas brasileira |
Wilson Valentin Biasotto * Essa crônica explica uma anterior, que recebeu algumas críticas porque elogiei a postura do governo Lula em criar mais de uma dezena de Universidades no Brasil no período de 9 anos. Pelo exposto abaixo desejo que o caro leitor tire as suas conclusões. Desde a fundação da primeira Universidade brasileira, a UFRJ, em 1920, até 1963, foram criadas no Brasil 20 Universidades Federais. Dez delas, coincidindo com o governo desenvolvimentista de Juscelino Kubtscheck, sendo oito em 1960 e duas no início de 1961. O ritmo lento do crescimento universitário brasileiro até o final dos anos de 1950 deveu-se não somente à mentalidade provinciana da época, mas também ao fato de o Brasil ser ainda um país rural. Dos cerca de 52 milhões de habitantes, no início dos anos 50 apenas 36% viviam nas cidades. O êxodo rural provocado especialmente pela industrialização brasileira a partir de meados dos anos de 1950, aliado ao vertiginoso crescimento demográfico exigia dos governantes que sucederam Juscelino, medidas no mínimo idênticas às tomadas por ele em relação à criação de Universidades. Para se ter uma idéia a população brasileira em 1940 era de 41.236.315; em 1950, 51.944.397; em 1960, 70.191.370 e em 1970 93.139.037; em 1980, 119.002.706. Lamentavelmente não foi o que aconteceu. Nos anos de 1962 e 1963 foram criadas apenas três Universidades no Brasil. Em março de 1964 foi implantada a Ditadura Militar no Brasil. No período em que os militares ocuparam o poder foram criadas 16 Universidades, o que enseja a alguns áulicos mal informados ou intencionados, defenderem a Ditadura como impulsora do Ensino Superior. Vejamos, no entanto que o período não foi nada favorável ao Ensino por três razões principais. A primeira foi a perseguição a centenas de professores, aposentando-os ou exilando os que eram contrários ao Regime. A segunda razão é que, descontada a transformação da Universidade Estadual de Mato Grosso em Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, que foi consequência da divisão do Estado por razões eminentemente eleitoreiras, a Ditadura criou apenas 15 Universidades num período de 21 anos, pelos quais passaram 5 presidentes, além de uma Junta Militar em 1969. Portanto foram criadas em média 3 Universidades a cada cinco anos de Ditadura. A Terceira razão pela qual o regime militar foi nefasto ao Ensino Público Superior é que a Ditadura acabou com os cursos de Sociologia e Filosofia e criou as excrescências de Estudos Sociais para substituir História e Geografia e Licenciatura Curta em Ciências, em detrimento da Química, Física e Biologia. Entre 1986 e 2002 foram criadas 9 universidades sendo 6 delas no governo FHC, 1 em 2000 e 5 em 2002. Tivesse paralelamente à criação dessas 6 Universidades, contemplado as já existentes, FHC poderia se aproximar de Juscelino, mas o presidente Fernando Henrique ao invés disso, inspirado talvez no neoliberalismo que imperou em sua época, permitiu uma expansão muito grande de Faculdades Particulares e promoveu o maior sucateamento já experimentado pelas Universidades Públicas do Brasil. Além da falta de verba para a pesquisa e extensão universitária, cerca de oito mil cargos de professores ficaram vagos nas Universidades brasileiras ao término de seu mandato e essas vagas eram preenchidas por professores substitutos contratados com salários ridículos, por hora aula ministrada. Entre 2005 a 2009, período governado por Lula, foram criadas 12 Universidades no Brasil, e duas estão em frase de tramitação do Congresso Nacional. Ora, pois, caro leitor, se na Alemanha, França, Itália, enfim nos países Europeus, praticamente 100% das Universidades são Públicas e esses países atingiram um elevado grau de desenvolvimento econômico e social, não é de se imaginar que quanto maior o número de Universidades Públicas no Brasil, maior também será o nosso desenvolvimento? É para essas coisas que pagamos elevados impostos, não para os trambiques, maracutaias e quejandos. Suas críticas são bem vindas: biastto@biasotto.com.br * Da Academia Douradense de Letras. Prof. aposentado CEUD/UFMS. |
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