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Valfrido da Silva Melo é jornalista, escritor, roteirista, produtor e diretor de TV e consultor político.
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05/04/2009
Mato Grosso esquina com Cuiabá

Chamou-me a atenção dia desses uma propaganda de rádio cujo estabelecimento comercial em vez de anunciar o número da rua em que se localizava simplesmente informava: "Mato Grosso esquina com Cuiabá". Soou estranho, já que desde sempre, para nós, mato-grossenses e, mais tarde, mato-grossenses do sul, o que se ouve é Mato Grosso, capital Cuiabá, embora nos últimos trinta anos muita gente por esse Brasil afora insista em trocar as bolas, ora escrevendo ou dizendo Mato Grosso capital Campo Grande ou citando Cuiabá como capital do Mato Grosso do Sul, entre tantas outras combinações, como aquelas que insistem em reinserir Dourados no mapa do Mato Grosso ou trazer Rondonópolis para o Mato Grosso do Sul.

Não deixa de ser significativo para a história este cruzamento onde a rua Mato Grosso, no sentido bairro-centro, deixa de ser uma única pista de rolamento, duplicando-se, exatamente a partir da rua Cuiabá, como que a lembrar a luta centenária dos “divisionistas” culminada com a transformação do imenso território do velho Mato Grosso em dois Estados, em 11 de outubro de 1977. E que bela homenagem ao gigante adormecido vislumbrado por Pedro Pedrossian como o grande colosso, e, particularmente, aos habitantes de sua centenária capital, Cuiabá.

Se Dourados tem hoje o privilégio de manter os nomes das ruas que lembram nosso Estado de origem e sua capital isto se deve ao pulso firme do então prefeito José Elias Moreira, que resistiu ao ímpeto mudancista da Câmara de Vereadores depois de substituídos todos os nomes dos Estados brasileiros pelos de pioneiros ou de personalidades históricas, outras nem tanto, em todas as ruas do quadrilátero central da cidade.

José Elias Moreira, que trocou Poços de Caldas por Dourados, onde se encantou por uma cuiabana, viu com tristeza o nome de sua Minas Gerias ser substituído pelo do pioneiro português João Cândido Câmara, pai daquele que viria ser seu maior adversário político. Quando se sentou na cadeira que fora de Totó Câmara, os vereadores vieram com a proposta de trocar também os nomes das ruas Mato Grosso e Cuiabá. E ele reagiu com firmeza: “aqui não jacaré!”, acrescentando que além de respeitar a história do Mato Grosso não teria como encarar sua Adenil e toda a família Carneiro, que acompanharam o pioneiro Wilson Benedito para o Sul do Mato Grosso em plena efervescência da luta “divisionista”, aqui fincando raízes.

Atitudes corajosas como a de Zé Elias servem para manter vivos alguns poucos fiapos da história da terra de seu Marcelino e deveria servir de exemplo aos forasteiros que tomaram Dourados de assalto, a maioria não estando nem aí para esses pequenos detalhes. Se todos pensassem como o mineirinho de Poços de Caldas, como é conhecido entre amigos o filho de seu Quinzito, Dourados se encarregaria de aproximar por laços ainda mais fraternos esse Brasilsão de meu Deus e aí não teríamos apenas Mato Grosso, esquina com Cuiabá, como também Rio Grande do Sul, e, paralelamente Paraná e Santa Catarina, fazendo esquina com Espírito Santo, Bahia, Pernambuco, entre outras confluências históricas.

E antes que apareça algum gaiato tentando mudar de novo a legislação para fazer média com familiares de algum figurão, apagando o que aqui restou de Mato Grosso e de Cuiabá, seria interessante que se levantasse ali naquele cruzamento um monumento para que se eternizem os bons tempos que Dourados foi Mato Grosso. Com a palavra excelentíssimo Valdecir e os nobres representantes do povo no Palácio Jaguaribe.

 
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